domingo, 2 de agosto de 2009

Olhares#2


Embondeiro

Área de Serviço de Sangano

Sangano "de cima"


Sangano Beach


Regresso a Luanda






* "FIM-DE-SEMANA NO CHIUAUA"

O que resta da semana acaba por se queimar num instante como papel em brasa de fogueira, dada a quantidade de eventos e situações novas para mim. Chegamos ao final de tarde de sexta-feira e podemos dar como fechada a loja, por esta semana. Saímos do moderno edifício sede todo-poderoso de um dos maiores ícones da nova economia angolana, bem a condizer com o seu estatuto; ladeados pela sua vizinhança mesclada entre recém-nascidos, embriões e velhinhos do tempo colonial. Ao contemplar estes últimos, sou invadido por uma enorme nostalgia: muitas daquelas fachadas são autênticas cópias, réplicas arquitectónicas do estilo Estado Novo. Não que eu pertença a esse tempo, obviamente que não, mas recordo-me de em menino ir a casa dos meus avós e as casas deles na minha infância ainda eram assim!

No caminho até ao hotel Presidente percorremos a avenida marginal da baía de Luanda. Das primeiras ideias que me ocorrem é que tem um potencial enorme – pode ser a versão afro de Copacabana; ainda por explorar, apesar de muito da cidade estar ali centrada: escritórios, bancos, hotéis, serviços administrativos, a baía sofre do grande problema que vou aferindo da minha leitura: o fio condutor. Naquele trajecto reparamos num insólito que face ao nível a que, desde as primeiras horas aqui, me habituaram até acaba por não ser nada de extraordinário. Nada mais, nada menos que um iate virado do avesso em plena avenida, qual cena “hollywoodesca” ao género de “Speed” com Keanu Reeves e Sandra Bullock. “Sem makas”, como eles dizem por cá!

Jantar no “Fortaleza” como é vulgarmente conhecido entre os habitués de Angola. Na verdade nem sei bem o nome do restaurante, mas é bastante engraçado. Mesas num pateo mergulhado numa infinidade espécies de flora tropical, ao som de música Africana e do Caribe, com iguarias Luso-Angolanas, regadas de Cucas ou caipirinhas consoante a vontade do freguês. Resultado um cocktail cultural “explosivo” que acaba por resultar para temas tão profundos como Lusofonia ou a Tríade Portugal-Angola-Brasil e todas as variantes culturais, sociais, económicas e políticas, da mesma. Excelente mote, sem dúvida, para uma noite de diversão, como acabaria por se revelar! Batemos Palus e W – ex-Chiuaua, gostava mais deste nome, até porque assim podia recordar com maior magnitude o tema “Yah” dos Buraka Som Sistema, quando o ouvisse das próximas vezes.

Sair à noite em Luanda não é propriamente tranquilo nem barato – como qualquer item de lazer nesta cidade. De tranquilidade, confesso que não vinha à espera de encontrar neste tipo de ocasiões, mas experiências como entrar para o carro e ter um magote de arrumadores a pressionarem para dares 500 AKZ (equivalente a 5€) no mínimo, para o estacionamento; os arrumadores que perdem a vez, em tentativa de coacção com ameaças de partirem o vidro, por termos aleatoriamente escolhido um outro colega, a quem vamos dar o fee; ou ter que correr para o carro à porta do Palus, porque se diz que é das zonas a evitar; era algo que jamais tinha tentado. Acabamos por nos safar bem, a noite é bastante animada e pela primeira vez sinto Luanda a entranhar-se... Noites “low-cost” também não esperava, mas quando começo a fazer algumas contas de cabeça chego à conclusão que uma noite aqui em Luanda custa “os olhos da cara”: Jantar fora e sair a dois bares/discotecas pode ascender, sem excessos, aos AKZ 20.000, (aproximadamente €200). 6 da manhã hotel Presidente: estafados, ainda com estilhaços da viagem a meio da semana e com os ecos das sonoridades do W – Kizombas, Kudurus, brasileiradas, etc, nos ouvidos.

Primeiro Sábado em Luanda, arranjamos um programa ainda ajustado aos hábitos Europeus: esplanada numa praia da ilha – tecnicamente não é uma ilha, mas sim uma península e ida ao shopping cá do sítio. Nada de sofisticações, é mais que suficiente para o target real do conceito, ao contrário do país campeão europeu dos Centros Comerciais – a nossa população já cabe em todos os shoppings de Portugal, talvez se justifique e agora percebo como é que os ditos estão lotados quando chove…

O derradeiro dia do f-d-s é destinado a rumar a Sul. Escolhemos Caboledo e Sangano para passarmos o nosso sétimo dia da semana. À medida que me vou adaptando em e a Luanda, constato que o trânsito aqui é mesmo um cancro. Não é apenas a fama, relatada por quem já lá esteve. Verifico que o proveito também é efectivo. A um Domingo, e para sairmos da cidade levámos cerca de uma hora para percorrer 20km! Quando eu pensaria: “Ok, pelo menos ao Domingo vai ser tranquilo sair daqui, sem stress!”, engano-me redondamente… Resigno-me. Mais hora e meia de caminho: passamos ao largo do Mussulo, atravessamos florestas de embondeiros, cruzamos o rio Kwanza e avistamos à direita a sua barra, entramos na província do Bengo e finalmente estamos em Cabo Ledo, na “Praia dos Surfistas”, como também é reconhecida. É fácil perceber porquê: muitos dos portugueses, brasileiros e alguns americanos que vivem e trabalham durante a semana em Luanda, têm ali o seu escape, o seu momento zen e o seu equilíbrio mental, seja porque quebram a rotina, ou porque têm praia selvagem, ou porque encontram boas ondas, ou porque simplesmente saem de Luanda. É saudável e eu consigo perceber porquê. Consigo perceber porque só assim se conseguem aguentar cá uma temporada significativa de investimento pessoal e profissional. Quem vem para Angola trabalhar, por mais objectivos diferentes que se possam ter, a conta bancária será sempre uma referência para o ponto de chegada desta viagem. Não creio que ninguém virá para cá só porque sim e abdicar da família que fica no nosso lar, amigos que distam agora de telefonemas ou emails, segurança que ainda vai resistindo, namoradas ou namorados que ficam em ansiedade… O sonho de ter uma casa paga, ou simples uma entrada para o banco financiar o crédito habitação; comanda muitos dos investimentos pessoais, da grande maioria dos jovens que se mudam para cá. Creio que esta geração vai ficar marcada por este fluxo migratório itinerante, tal como a geração de 60 e 70 ficou marcada pelo fluxo migratório permanente para França, Canadá, EUA, Africa do Sul, entre outros destinos de investimento pessoal.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Olhares#1

Pôr-do-Sol sobre a Ilha de Luanda


Baia de Luanda - final de tarde




Baía de Luanda by night


terça-feira, 28 de julho de 2009

* INTRO


Terça-feira, 7 de Julho de 2009; duas e trinta da tarde. Acabado de chegar de um óptimo almoço composto de iguarias orientais, num restaurante Indiano no centro de Lisboa; eis que me anunciam a confirmação da minha ida para Angola. Finalizo os últimos pormenores de organização dos meus pertences no escritório, recolho documentação da viagem e acerto horas com os meus companheiros de projecto.

Depois de uma correria entre o trânsito de Lisboa, acabar de organizar a bagagem, voltar ao trânsito de Lisboa, chego finalmente ao Aeroporto Internacional de Lisboa para despachar bagagens e embarcar rumo a uma nova aventura cultural, desafio profissional e pessoal… E a componente pessoal começou logo nas despedidas de amigos, família e cara-metade. Esperam-me várias semanas de teste às minhas capacidades de resistência, num cenário out-of-the-box!

Aterrámos em Luanda perto das sete da manhã, após oito horas de voo. Não me lembro de viagem de longo-curso que tenha feito, que tenha custado tão pouco – fi-la quase toda a dormir, no limiar do profundamente, o que para mim é um feito! Na alfândega remodelada, segundo os meus colegas, o corrupio está instalado pela obtenção do “OK” do enfermeiro alfandegário, que verifica a validade do Boletim Internacional de Vacinação. Na verdade o senhor enfermeiro não valida nada, pois acaba por ser fácil (no meio da confusão) pedir o Boletim a outra pessoa e autenticá-lo de novo. O controlo não é efectivo, como tecnicamente se costuma dizer. Acabaria por perceber, dias mais tarde, que “faz parte”, esta desorganização constante neste país… No fundo, para quem se esquece ou simplesmente não tem o documento internacional que comprova a prevenção contra as n epidemias e afins que proliferam por regiões subdesenvolvidas como esta - e que como nós, habitantes de países ditos desenvolvidos, não desenvolvemos naturalmente anticorpos necessários e suficientemente resistentes àquelas maleitas; acaba por ser positivo, pois entre forjar uma autenticação dos requisitos de prevenção exigidos, ser vacinado no aeroporto de Luanda ou subornar com cem dólares o responsável da enfermaria, talvez a primeira opção seja, definitivamente e ironicamente, a mais saudável (para o corpo e para o bolso). Felizmente para mim obtenho uma validação efectiva no meu Boletim e lá prossigo os restantes passos do controlo alfandegário. Acabo por ser bafejado por alguma sorte, segundo os meus colegas, já que acabei por não passar pelas “passas de Luanda” no que toca ao melhor que o Aeroporto Internacional podia oferecer a um forasteiro recém-chegado: um controlo alfandegário-sauna!

O meu primeiro contacto com a realidade de Luanda acontece no trajecto entre o Aeroporto e a Baía da capital angolana. A minha primeira surpresa depara-se com o clima: é Inverno cá. Estava precavido para a generosidade afro-subsariana da estação, mas achei que ainda assim ia estar mais calor. Não está. Uma camada de nuvens a fazer lembrar Londres – já é conhecida como tal relativamente ao continente africano, temperatura amena. O trânsito é caótico! Já estive em países da América Central ou Norte de África, onde o trânsito é um problema. Já nem falo do trânsito para entrar em Lisboa, quer vindo de Norte ou Sul. Mas aqui o trânsito é verdadeiramente horrível, para além de pouco civilizado, flúi a muito custo ou simplesmente está parado. Conclusão: levámos quase duas horas para chegar à baixa de Luanda. Para mim são duas horas que voam com a quantidade de informação fotográfica a processar no meu “disco rígido”.

As primeiras horas em Luanda, fazem-me sentir que não pertenço a este lugar. Posso dizer que já viajei por alguns países e continentes, inclusivamente já tinha estado em África, mas não na sua maior plenitude, como Angola. Sinto-me um ser estranho aqui, quase como se não tivesse firmeza no andar. Chego à conclusão que o que me está a perturbar é a confusão, o rebuliço que comanda a vida nas ruas. Talvez pelo choque de culturas e de diferentes concepções de civilização. O que para mim, Europeu, é um dado adquirido, aqui é impensável; e o que para um Africano é prática comum, jamais me passaria pela cabeça conceber.

O dia acaba num restaurante fantástico da península, com uma vista nocturna sobre a baía Luanda maquilhada pelas luzes do capitalismo a iluminarem os edifícios, os novos, os velhos e os que estão a nascer, todos tão harmoniosamente desarrumados com a realidade.