O que resta da semana acaba por se queimar num instante como papel em brasa de fogueira, dada a quantidade de eventos e situações novas para mim. Chegamos ao final de tarde de sexta-feira e podemos dar como fechada a loja, por esta semana. Saímos do moderno edifício sede todo-poderoso de um dos maiores ícones da nova economia angolana, bem a condizer com o seu estatuto; ladeados pela sua vizinhança mesclada entre recém-nascidos, embriões e velhinhos do tempo colonial. Ao contemplar estes últimos, sou invadido por uma enorme nostalgia: muitas daquelas fachadas são autênticas cópias, réplicas arquitectónicas do estilo Estado Novo. Não que eu pertença a esse tempo, obviamente que não, mas recordo-me de em menino ir a casa dos meus avós e as casas deles na minha infância ainda eram assim!
No caminho até ao hotel Presidente percorremos a avenida marginal da baía de Luanda. Das primeiras ideias que me ocorrem é que tem um potencial enorme – pode ser a versão afro de Copacabana; ainda por explorar, apesar de muito da cidade estar ali centrada: escritórios, bancos, hotéis, serviços administrativos, a baía sofre do grande problema que vou aferindo da minha leitura: o fio condutor. Naquele trajecto reparamos num insólito que face ao nível a que, desde as primeiras horas aqui, me habituaram até acaba por não ser nada de extraordinário. Nada mais, nada menos que um iate virado do avesso em plena avenida, qual cena “hollywoodesca” ao género de “Speed” com Keanu Reeves e Sandra Bullock. “Sem makas”, como eles dizem por cá!
Jantar no “Fortaleza” como é vulgarmente conhecido entre os habitués de Angola. Na verdade nem sei bem o nome do restaurante, mas é bastante engraçado. Mesas num pateo mergulhado numa infinidade espécies de flora tropical, ao som de música Africana e do Caribe, com iguarias Luso-Angolanas, regadas de Cucas ou caipirinhas consoante a vontade do freguês. Resultado um cocktail cultural “explosivo” que acaba por resultar para temas tão profundos como Lusofonia ou a Tríade Portugal-Angola-Brasil e todas as variantes culturais, sociais, económicas e políticas, da mesma. Excelente mote, sem dúvida, para uma noite de diversão, como acabaria por se revelar! Batemos Palus e W – ex-Chiuaua, gostava mais deste nome, até porque assim podia recordar com maior magnitude o tema “Yah” dos Buraka Som Sistema, quando o ouvisse das próximas vezes.
Sair à noite em Luanda não é propriamente tranquilo nem barato – como qualquer item de lazer nesta cidade. De tranquilidade, confesso que não vinha à espera de encontrar neste tipo de ocasiões, mas experiências como entrar para o carro e ter um magote de arrumadores a pressionarem para dares 500 AKZ (equivalente a 5€) no mínimo, para o estacionamento; os arrumadores que perdem a vez, em tentativa de coacção com ameaças de partirem o vidro, por termos aleatoriamente escolhido um outro colega, a quem vamos dar o fee; ou ter que correr para o carro à porta do Palus, porque se diz que é das zonas a evitar; era algo que jamais tinha tentado. Acabamos por nos safar bem, a noite é bastante animada e pela primeira vez sinto Luanda a entranhar-se... Noites “low-cost” também não esperava, mas quando começo a fazer algumas contas de cabeça chego à conclusão que uma noite aqui em Luanda custa “os olhos da cara”: Jantar fora e sair a dois bares/discotecas pode ascender, sem excessos, aos AKZ 20.000, (aproximadamente €200). 6 da manhã hotel Presidente: estafados, ainda com estilhaços da viagem a meio da semana e com os ecos das sonoridades do W – Kizombas, Kudurus, brasileiradas, etc, nos ouvidos.
Primeiro Sábado em Luanda, arranjamos um programa ainda ajustado aos hábitos Europeus: esplanada numa praia da ilha – tecnicamente não é uma ilha, mas sim uma península e ida ao shopping cá do sítio. Nada de sofisticações, é mais que suficiente para o target real do conceito, ao contrário do país campeão europeu dos Centros Comerciais – a nossa população já cabe em todos os shoppings de Portugal, talvez se justifique e agora percebo como é que os ditos estão lotados quando chove…
O derradeiro dia do f-d-s é destinado a rumar a Sul. Escolhemos Caboledo e Sangano para passarmos o nosso sétimo dia da semana. À medida que me vou adaptando em e a Luanda, constato que o trânsito aqui é mesmo um cancro. Não é apenas a fama, relatada por quem já lá esteve. Verifico que o proveito também é efectivo. A um Domingo, e para sairmos da cidade levámos cerca de uma hora para percorrer 20km! Quando eu pensaria: “Ok, pelo menos ao Domingo vai ser tranquilo sair daqui, sem stress!”, engano-me redondamente… Resigno-me. Mais hora e meia de caminho: passamos ao largo do Mussulo, atravessamos florestas de embondeiros, cruzamos o rio Kwanza e avistamos à direita a sua barra, entramos na província do Bengo e finalmente estamos em Cabo Ledo, na “Praia dos Surfistas”, como também é reconhecida. É fácil perceber porquê: muitos dos portugueses, brasileiros e alguns americanos que vivem e trabalham durante a semana em Luanda, têm ali o seu escape, o seu momento zen e o seu equilíbrio mental, seja porque quebram a rotina, ou porque têm praia selvagem, ou porque encontram boas ondas, ou porque simplesmente saem de Luanda. É saudável e eu consigo perceber porquê. Consigo perceber porque só assim se conseguem aguentar cá uma temporada significativa de investimento pessoal e profissional. Quem vem para Angola trabalhar, por mais objectivos diferentes que se possam ter, a conta bancária será sempre uma referência para o ponto de chegada desta viagem. Não creio que ninguém virá para cá só porque sim e abdicar da família que fica no nosso lar, amigos que distam agora de telefonemas ou emails, segurança que ainda vai resistindo, namoradas ou namorados que ficam em ansiedade… O sonho de ter uma casa paga, ou simples uma entrada para o banco financiar o crédito habitação; comanda muitos dos investimentos pessoais, da grande maioria dos jovens que se mudam para cá. Creio que esta geração vai ficar marcada por este fluxo migratório itinerante, tal como a geração de 60 e 70 ficou marcada pelo fluxo migratório permanente para França, Canadá, EUA, Africa do Sul, entre outros destinos de investimento pessoal.